Ali está ele. Um corpo imenso, deitado no meio da tarde, feito um bicho antigo que não teve tempo de fugir da modernidade. Olhe bem, não para o que ele fez, mas para o que ele é agora: um silêncio retumbante.
O contraste chega a dar um estalo na vista. De um lado, a cidade que corre, o asfalto novo, o barulho de quem não tem tempo de olhar para trás. Do outro, esse gigante, parado, pedindo licença para sumir. Ele é o passado em carne viva, ou melhor, em ferro enferrujado, que teima em ocupar um espaço que o presente já não quer mais ceder.
Sente esse aperto? É a saudade. Mas não uma saudade de "ontem", é uma saudade do "sempre". A gente olha para aquelas chapas retorcidas e vê os rastros de um tempo em que as coisas eram feitas para durar mais que a gente. Agora, ele é uma presença fantasmagórica. O sol bate e não reflete luz, reflete memórias que a gente nem sabia que guardava.
Dói saber do destino? Dói. A demolição é uma palavra seca, cortante como foice. Mas a mudança é o rio que não para. Esse gigante está cansado. Ele já cumpriu o seu rito de presença. Logo, ele será chão, será vazio, e depois será outra coisa qualquer. A paisagem vai ficar órfã daquela silhueta, e o horizonte vai parecer mais largo, porém mais frio.
Mudar é a
lei, mas lembrar é o milagre. Que ele caia, então, para que a terra respire
novos tempos. Mas que, no lugar onde ele tombou, fique impregnado esse jeito
mineiro de ser: esse silêncio que, de tão fundo, vira oração. O gigante se vai,
mas o oco que ele deixa... ah, esse oco é que vai contar a nossa história para
quem souber ouvir o vento. Tudo é caminho, meu caro. E esse, talvez, seja o
mais bonito de todos: a de virar lembrança.







