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Colunas
03/03/2026 - 08h48
Virar Lembrança!
Confira a coluna escrita por Emerson Miranda

Ali está ele. Um corpo imenso, deitado no meio da tarde, feito um bicho antigo que não teve tempo de fugir da modernidade. Olhe bem, não para o que ele fez, mas para o que ele é agora: um silêncio retumbante. 

O contraste chega a dar um estalo na vista. De um lado, a cidade que corre, o asfalto novo, o barulho de quem não tem tempo de olhar para trás. Do outro, esse gigante, parado, pedindo licença para sumir. Ele é o passado em carne viva, ou melhor, em ferro enferrujado, que teima em ocupar um espaço que o presente já não quer mais ceder. 

Sente esse aperto? É a saudade. Mas não uma saudade de "ontem", é uma saudade do "sempre". A gente olha para aquelas chapas retorcidas e vê os rastros de um tempo em que as coisas eram feitas para durar mais que a gente. Agora, ele é uma presença fantasmagórica. O sol bate e não reflete luz, reflete memórias que a gente nem sabia que guardava. 

Dói saber do destino? Dói. A demolição é uma palavra seca, cortante como foice. Mas a mudança é o rio que não para. Esse gigante está cansado. Ele já cumpriu o seu rito de presença. Logo, ele será chão, será vazio, e depois será outra coisa qualquer. A paisagem vai ficar órfã daquela silhueta, e o horizonte vai parecer mais largo, porém mais frio. 

Mudar é a lei, mas lembrar é o milagre. Que ele caia, então, para que a terra respire novos tempos. Mas que, no lugar onde ele tombou, fique impregnado esse jeito mineiro de ser: esse silêncio que, de tão fundo, vira oração. O gigante se vai, mas o oco que ele deixa... ah, esse oco é que vai contar a nossa história para quem souber ouvir o vento. Tudo é caminho, meu caro. E esse, talvez, seja o mais bonito de todos: a de virar lembrança.



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