A manhã vinha se abrindo mansa, com aquela claridade fina
que só o outono mineiro sabe derramar sobre o telhado das casas. Tempo de
Quaresma, como se sabe, é tempo de recolhimento. O vento parece que sopra mais
baixo, a poeira assenta com respeito e o homem do interior, por costume de alma
e herança de avós, costuma olhar mais para o chão, medindo os passos, pesando
as próprias cinzas.
Mas a natureza, em sua sabedoria de raiz e seiva, tem lá as
suas desobediências sagradas.
Foi virando a esquina, no treito comum de uma rua nossa
aqui de Patrocínio, que os olhos tomaram aquele susto bom. Lá estava ela. Uma
quaresmeira inteira, estourada em flor. Um roxo tão vivo, tão denso, que
parecia ter roubado para si toda a cor que faltava no resto da paisagem. O
asfalto cinza, o muro descascado, o fio do poste, tudo sumia. Só o que
governava o pedaço era aquele escândalo de lilás e púrpura, um banquete
oferecido de graça a quem quisesse reparar.
Parei o passo. Árvore não fala, mas profere. E o que aquela
quaresmeira estava ali pregando, no meio da calçada, era uma lição de silenciar
os mais estudados.
A gente passa a vida inteira acreditando que o tempo certo
de mostrar o que tem de melhor é na primavera. A gente espera o clima amansar,
a chuva molhar a terra, o sol brilhar na medida justa para, só então, ter a
coragem de florir. A gente guarda a alegria, o perdão, o gesto largo e a
palavra mansa para quando o cenário estiver perfeito. Para quando não houver
dor, nem luto, nem dívida, nem cansaço.
Mas a quaresmeira, não. A árvore é sábia de uma ciência que
subverte o calendário dos homens. Ela escolhe florir justamente na Quaresma. No
tempo da aridez, da penitência, do céu que muitas vezes pesa chumbo. Ela não
espera as águas de novembro nem o calor de dezembro. Ela junta as próprias
forças no tempo mais difícil e diz, com o corpo inteiro de madeira e folha: é
na escassez que a beleza se faz mais necessária.
Aquela florada roxa me ensinou, ali mesmo, que a
generosidade maior não é a que sobra, mas a que resiste. Oferecer doçura quando
o mundo está doce é feitio fácil, qualquer graveto cumpre. Mas oferecer uma
copa carregada de esplendor quando o mundo ao redor pede cinzas e silêncio,
isso é milagre de quem tem a raiz muito bem fincada no chão da própria
identidade.
Olhei para as flores caídas, formando um tapete miúdo no
passeio, e pensei na nossa gente. Quantas vezes o peito da gente não está
atravessando uma quaresmeira comprida? Um tempo de provação, de secura, de
perda, de doença ou de aperto. A inclinação natural é secar junto, recolher as
folhas, negar ao outro o nosso sorriso porque a nossa própria alma está doendo.
O ensinamento da árvore é um puxão na consciência: não
guarde sua luz para os dias fáceis. Seja a cor no dia pardo do seu semelhante.
Se a vida lhe pedir recolhimento e o tempo for de choro, chore; mas não deixe
de florir nas beiradas. A dor não precisa ser feia, e a penitência não precisa
ser seca. A gente pode atravessar o deserto oferecendo sombra.
Voltei para casa com o passo diferente. O peito parecia que
tinha bebido água fresca. A quaresmeira ficou lá, parada, cumprindo o seu
ofício de enfeitar a lida alheia, ensinando que a verdadeira força de um homem
ou de uma mulher não está em fugir do tempo ruim, mas em ter a ousadia de
desabrochar bem no meio dele.
Posfácio: ... só nas lonjuras do interior, nessa nossa
Patrocínio de compasso manso, que o zói da gente tem a permissão e o vagar de
vadear pelas miudezas. O mundo lá fora engole os dias na pressa, mas aqui, onde
o tempo inda senta no alpendre pra tomar um cafezim, a gente sabe assuntar a
lindeza de uma flor teimosa. Esse é o tesouro maior do nosso chão: um ritmo que
num corre atrás de relógio, mas que margeia a vida devagarinho, atestando que o
milagre mais bonito num é o estrondo das coisas grandes, mas esse silêncio
nosso, que dá o tempo exato pra alma da gente escutar o chão desabrochar.







